CRIAR SEM POSSUIR
O BUYOUT COMO DISPOSITIVO DE CONTROLE NA PRODUÇÃO AUDIOVISUAL BRASILEIRA PARA STREAMING
Keywords:
plataformas de streaming, buyout, expropriação patrimonial, produção audiovisualAbstract
Este artigo analisa como o modelo de compra integral de direitos patrimoniais (buyout), praticado pelas plataformas transnacionais de streaming, reconfigura as condições materiais e simbólicas do trabalho criativo no audiovisual brasileiro. A base empírica consiste em dez entrevistas semiestruturadas com profissionais da cadeia produtiva de séries brasileiras para streaming, realizadas entre 2023 e 2025. O quadro teórico interpretativo articula as categorias de aparelho, programa e funcionário, formuladas por Vilém Flusser, com a análise das plataformas como infraestruturas de extração (SRNICEK, 2017), o conceito de mercadoria cultural contingente (NIEBORG; POELL, 2018) e a noção de capitalismo preditivo (AMADEU, 2023). O argumento central é que o buyout não constitui mero arranjo contratual: é dispositivo que transforma produtoras em prestadoras de serviço intercambiáveis e criadores em trabalhadores sem acúmulo patrimonial, eliminando as bases materiais que sustentariam a sua resistência ao programa do aparelho. O buyout opera como condição para a subordinação criativa: sem catálogo, sem direitos e sem margem de recusa, o profissional internaliza preventivamente as demandas da plataforma. A contribuição do artigo reside em demonstrar que o controle das plataformas sobre a produção audiovisual opera em dois registros simultâneos e articulados: o contratual, pela expropriação dos direitos sobre as obras, e o algorítmico, pela opacidade dos critérios decisórios. A convergência entre esses dois registros produz autocensura preventiva que distingue esse modelo de formas anteriores de constrangimento à criação audiovisual no Brasil.
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